
Sempre Ziraldo!!
Na aula do dia 1º de outubro no curso que faço, FNLIJ/SME 2009 Leitura, Literatura e formação de leitores, aprendemos mais sobre Ziraldo. Me chamou atenção o texto trabalhado, um fragmento da palestra "Uma visão do que é educar" proferida em Uberaba em 17/ 03/ 1997. Sempre amei Ziraldo, agora mais ainda, pois seu pensamento se parece muito com o meu e não poderia deixar de compartilhar aqui.
Com uma simplicidade incrível ele define, a meu ver, a tão falada e pouco entendida MEDIAÇÃO proposta por Vygotsky e mostra o que a escola não deve fazer.
Te amo Ziraldo!!!
oo000ooo
Em termos bastante práticos, o que tenho proposto, por todo Brasil onde vou, é esta a minha teoria: no ensino básico, acabou de alfabetizar o menino, já entra com o livrinho e faz logo a festa do primeiro livro (que é como a festa da primeira comunhão), para ela sacralizar o livro. A mãe chora, a família toda emocionada, filmam, o menino recebe, nesse momento o primeiro livro. No primeiro ano, começa como se apaixonar pelo mais belo objeto que o ser humano já inventou. Leva o menino pra ver o livro, conversa com ele sobre o livro; não manda interpretar, não pergunta quem é o protagonista, não faz categoria,. Menino não precisa saber o que é pro-ta-go-nis-ta - uma palavra toda desdobrada, cheia de significados, ele não tem que usar a palavra protagonista, tem é que ser feliz.
Convencionou-se que aos 7 anos a criança deve ser alfabetizada. A escola recebe a criança em fase de alfabetização, e começa a ajudá-la a odiar o livro, odiar ler, porque começa a transpormar o livro em dever, ler em dever, quando ler deve ser prazer. Minha escola ideal é a seguinte, no primeiro dia de aula é a festa do livro, e todo dia um livro. O menino não vai ter espaço fora do livro, pra poder gostar. Gostar do cheiro deste objeto. Você não pode dar tempo pra ele não gostar. Criança tem tempo pra tudo. O dia do menino rende que é uma desgraça. Ele vai ter tempo pra tudo mais, e lê lá na escola; se gostar leva pra casa pra acabar de ler. Nos quatro anos entre os 7 e 9-10 anos, a criança deve aprender apenas a gostar de ler e as quatro operações, a noção de fração. Só. Só isso. A escola completamente o problema da formação e prepara pra educação formal (não é preparar para a matéria). Agora no gostar de ler ela vai aprender a respeitar o amigo, respeitar o colega, respeitar pai e mãe, chegar na hora. Quer dizer, vai ser preparada para viver fora de casa; isso não é matéria curricular. O próprio livro que o menino vai ler e o filme que vai ver, pra conversar sobre, estarão despertando a sua curiosidade pro mundo. A informação, o menino está louco para organizá-la na cabeça, mas não precisa afobar, a razão vai ajudá-lo a organizar. Vai sendo estimulado a ler - e aprendendo todas as coisas - e a ser informado; daí a pouco ele vai ter que ter método na escola, horário, guardar os cadernos, mas tudo isso como coisa suplementar.
As crianças vão aprender a ler, lidar com o livro de história, contar e ouvir histórias. A professora lê até certo ponto, dá o livro pra uma ler o final, para todos ouvirem. Leva o contador de histórias na sala. Na Inglaterra tem um programa de televisão em que a mulher senta num banco e diz: " vou contar pra vocês uma história". E fica 40 minutos contando uma história, sem um movimento de câmera, sem som, sem música; esse é o programa de maior audiência na Inglaterra hoje. Contador de história dá de 10 a 0 na televisão, dá de 1000 a 0. Você tem que fazer uma coisa lúdica na escola. Toda criança quer aprender a ler. Por que ela não gosta de ler, se toda criança quer aprender a ler? Fica louca para aprender a ler. Quando ela descobre a mágica o segredo da leitura, como é que é o mecanismo, você olha pra cara dela e está assim: "Meu Deus, então é isso?". E é uma felicidade! No dia seguinte, a escola começa a transformar esse prazer num terror. O erro esté na viradada pré-escola e alfabetização pra escola formal. A escola consegue infernar a vida do menino no primário, porque vira dever. Não tem que ficar forçando cabeça de criança não. É isso que eu quero dizer: o mmenino volta feliz da escola, porque todo menino quer ir pra escola; então não é a criança que é a culpada. Quem é que é culpada? É a escola. Sendo assim, tem que mudar a escola.
Tem uma anedota ótima, que diz que um sujeito morreu, na Idade Média, num hospital cheio de cadaver amontoado, pesta negra. Pá! Morreu. Morreu e acordou 400 anos depois na UTI; tudo branco, bem equipado, um outro morreu numa fábrica de carroça. Estava lá o carroção, as rodas...E, 400 anos depois, acordou e viu um Mercedes Benz. Morreu um terceiro. Na sala de aula. E, pá! Acordou e falou assim: "Oh! Olha eu aqui".